terça-feira, 5 de agosto de 2014

A Poluição do Ar na China Parece Não Ter Fim

Quando o ar de Beijing vai estar livre da poluição? Vou embora da China e não tenho uma resposta concreta para essa pergunta.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) mede a poluição no ar através do nível PM 2.5 (Particulate Matter). Mas o quê vem a ser isso?

PM 2.5 são partículas suspensas no ar, inaláveis, cujo diâmetro não ultrapassa 2.5μm1μm=0.001mm – μ é a abreviação de micro no Sistema Internacional de Unidades. Refere-se a um milionésimo, ou seja, 130 de um fio de cabelo).

Essas partículas resultam, fundamentalmente, da queima de combustíveis fósseis e são os principais componentes das emissões dos veículos motorizados. As partículas finas, devido ao seu tamanho diminuto, podem atingir os alvéolos pulmonares e podem ser prejudiciais à saúde (pulmão, garganta, coração etc.).

Para que a saúde das pessoas não seja afetada, foi definida como densidade padrão diária, a média abaixo de 35μg/m3. O que dizer, então de viver em Beijing, onde essa média passa muito longe? Nesse exato momento em que estou escrevendo, o índice lá em fora está em 159,8μg/m3. Mas isso não é nada: já peguei um dia aqui, em fevereiro de 2013, que esse número chegou a 895!!!!


O ar de Beijing no dia 28 de Fevereiro de 2013.


Interessante é ver a “briga” entre o órgão chinês responsável por medir a qualidade do ar e a Embaixada dos Estados Unidos, que faz a sua própria medição. O Primeiro sempre divulga números pequenos, enquanto que os americanos mostram números assustadores! Sinceramente? Não dá pra confiar na medição chinesa: a realidade está “clara” – sem trocadilho – bem a nossa vista. É só olhar o “fog” lá fora.


A poluição é tanta que os carros precisam
andar com os faróis ligados durante o dia.


Veja o quê a OMS determina quando a quantidade média diária for acima de 70μg/m3:

Procure não sair de casa;

Não passe longas horas fora de casa, seja praticando esportes ou não;

Procure fechar as portas e janelas de forma a evitar a circulação de ar poluído para dentro da casa; 


Pessoas com problemas respiratórios, garganta ou nariz, idosos e crianças devem tomar cuidados especiais, mesmo quando a média diária for inferior a 70μg/m3.




Nos últimos anos, a China reforçou regulamentos e vem aumentando os recursos financeiros no combate à poluição. Diminuir a poluição atmosférica é uma das principais metas do governo chinês, mas essa “luta” diária está longe de ser resolvida. Estudos apontam que o nível de emissão de carbono no país vem diminuindo gradativamente desde 2005, mas a poluição ainda é tanta, que esses números parecem fictícios.

O governo lança medidas como rodízio de carros, fabricação de veículos menos poluentes, impõe multas às fábricas que abusam na emissão de gases tóxicos. Mas as usinas de carvão ainda são a principal fonte de energia da China, o quê dificulta qualquer mudança de uma hora para a outra.

Os países vizinhos também sofrem com a poluição emitida por aqui. Nuvens de dióxido de enxofre e óxidos de nitrogênio atingem Seul, na Coreia do Sul e Tóquio, no Japão. Não é preciso nem dizer o quanto esses países criticam o governo da China por conta disso.

Enquanto as soluções não chegam, o número de vítimas da poluição só tende a aumentar. Anualmente milhares de pessoas morrem na China por causa de doenças relacionadas à poluição. O câncer, por sinal, é a principal causa das mortes no país. De pulmão, garganta... 

Vou embora levando a China no coração, mas costumo dizer que deixo parte do meu pulmão por aqui. Torço e continuarei torcendo para que o problema seja resolvido o mais rapidamente possível. A China é um belo país que merece ser lembrado por suas conquistas, seus feitos, suas invenções, e não ser apontado como um dos países mais poluentes do mundo.


Dados apontam a diminuição da emissão de Gás Carbônico na China.


 Controle do nível PM2.5 aponta o Paquistão como o
país mais poluente em 2013.
A China era o 7° e o Brasil 10°.
Dados publicados em matéria do dia 28 de maio de 2014 no site:








sábado, 2 de agosto de 2014

O Museu Ferroviário da China

No post anterior escrevi sobre o sistema de transportes de Beijing e falei sobre as modernas estações ferroviárias da capital. E nada melhor para conhecer a história das ferrovias chinesas do que visitar o Museu Ferroviário da China (Zhōngguó tiědào bówùguǎn, 中国铁道博物馆), localizado no sudeste da Praça da Paz Celestial, bem em frente a Torre Qianmen.

O Museu Ferroviário da China.


O Museu fica no prédio da antiga Zhengyangmen East Station, construída em 1903 e que começou a funcionar em 1906.

Um belo painel em madeira no hall de entrada
mostra a evolução do sistema ferroviário da China.


Do trem a vapor...

... Ao trem bala.


Durante mais de 130 anos, desde 1876, quando a primeira ferrovia começou a ser estabelecida na China, a indústria ferroviária chinesa enfrentou períodos de dificuldades. O Museu Ferroviário, assim como vi no Museu Nacional, relaciona o avanço da indústria ferroviária do país ao Socialismo com características chinesas, adotado a partir da fundação da República Popular da China, em 1949.

Apesar de todos os problemas vividos pela sociedade semifeudal em virtude das invasões estrangeiras e a subserviência da Dinastia Qing, até 1911 as ferrovias chinesas já tinham cerca de 5006,5 km de extensão. Muito pouco para as ambições chinesas e para um país com dimensões tão grandes.

Locomotiva usada na ferrovia 
Tangshan-Xugezhuang, em 1881.
Velocidade: 32km por hora.


Modelo em miniatura de uma locomotiva a vapor.


Zhan Tianyou.
Engenheiro pioneiro na construção das 
ferrovias chinesas.


Revolução de 1911 pôs fim ao período imperial derrubando a Dinastia Qing, mas a evolução da indústria ferroviária chinesa continuava aquém do esperado. A malha ferroviária se concentrava principalmente no nordeste e na área costeira do país, chegando a mais de 20.000 km em 1949. Mas comparando com outros países, ainda era ultrapassada e ineficiente.


A evolução do sistema ferroviário em fotos.


Um dos salões do Museu.


Mas aí veio 1949, veio Mao Tse-tung, nasceu o Socialismo-chinês com a formação do Partido Comunista da China, e o país começou a viver transformações, com a indústria ferroviária ganhando novo impulso, saindo de um período de dificuldades para um período de glórias. Era a China provando do progresso, estabelecendo um enorme desenvolvimento industrial e econômico.

Pelo que sei da história da China, a época pós-1949 foi um período de grandes transformações no país, que viveu momentos difíceis com a Revolução Cultural de Mao, mas os chineses preferem lembrar apenas dos grandes feitos. É notório que o país mudou, mas à custa de um grande sacrifício.


Brasão da locomotiva
batizada com o nome de Mao Tse-tung,
em 1977.



Parte de um antigo relógio usado numa
estação ferroviária.


Equipamentos antigos de sinalização e segurança.


Em 1978, a malha das ferrovias chinesas já alcançava 51.707 km, possuía equipamentos mais modernos e movimentava cerca de 810 milhões de pessoas por ano.

De lá pra cá esses números não pararam de crescer e o país não parou de se modernizar. Essa é uma verdade que está escancarada pra qualquer um: a China pós-Império deu um salto de qualidade e os governos que se seguiram sempre se preocuparam e se preocupam em modernizar o país.


Tesoura usada pelo ex-presidente Hu Jintao na 
inauguração da ferrovia Qinghai-Tibet.


Até 2010 as ferrovias chinesas ocupavam o posto de número dois do mundo, no que diz respeito a malha operacional, que era de 91.000km.  A capacidade anual de passageiros atingia 1.676 bilhões de pessoas. Quatro anos depois a China ainda continua em segundo lugar, atrás dos Estados Unidos, mas a malha chinesa já tem mais de 103.000km.

A China possui atualmente tudo de mais moderno no setor: das estações aos trens - trens comuns, trens de alta velocidade - equipamentos cada vez mais seguros, menos poluentes, mais econômicos e com uma qualidade de serviço excelente.



O museu tem um andar dedicado aos "novos tempos".


Gigi e o trem de alta velocidade.


Miniatura do trem de alta velocidade.


O Modelo CRH3 chega a atingir
a velocidade de 350 km por hora.
CRH é a abreviatura para
China Railwal High Speed.
Já existe o modelo CRH5.


A maior linha do mundo do trem de alta velocidade está na China: é a Beijing-Guangzhou, com 2.298 km de extensão. Até 2013, o trem de alta velocidade chinês tinha uma malha de 11.028 km: a maior do mundo para esse tipo de transporte.

O trem de alta velocidade chinês foi o primeiro a utilizar o sistema de levitação magnética, o maglev.


O trem bala e o trem mais comum.


Maquete da ponte de Nanjing
que fica sobre o Rio Yangtze.
Essas pontes ferroviárias estão por todo o país.


Maquete da estação de Chongqing.


No Museu tive a oportunidade de ver alguns vídeos sobre as ferrovias chinesas e me deu vontade de chorar. Por quê? Porque me vi mais uma vez lembrando que o Brasil está atrasado no tempo. Se contarmos de 1949 pra cá, a China fez em 65 anos o quê o Brasil não consegue nem colocar no papel. Triste realidade: o lema de nossa bandeira “Ordem e Progresso” está cada vez mais defasado.


Videos e animações mostram as
ferrovias chinesas, mapas, estações...


... Show de tecnologia.


Fachada lateral do Museu.












O Sistema de Transporte de Beijing

O rápido desenvolvimento urbano de Beijing trouxe progresso, mas também trouxe problemas para a capital chinesa.

O sistema de transporte da cidade, por incrível que pareça, mesmo com tantas linhas de metrô – ver post de 22 de Julho "O Metrô de Beijing" – linhas de ônibus e o uso ainda maciço de bicicletas e motos elétricas, não é suficiente para evitar os grandes congestionamentos.

Durante o tempo que moramos em Beijing usamos
muito essa moto elétrica. A maneira mais fácil de
fugir do trânsito caótico da capital.


Em Beijing não existe “hora do rush”. Os engarrafamentos são comuns a qualquer hora do dia, todos os dias da semana – ainda mais porque aqui o chinês trabalha de domingo a domingo.

A coisa é tão séria que você pode levar 40 minutos para percorrer um trajeto de 500 metros, numa mesma rua. Além do grande número de carros rodando na cidade, a situação fica pior porque os chineses não respeitam muito as leis de trânsito. Eles param os carros nos cruzamentos, fazem o retorno onde bem entendem e por aí vai. Às vezes parece que deu um nó na rua e que ninguém vai conseguir sair do lugar, mas depois de alguns minutos de espera “a fila anda”.

Algo comum nos cruzamentos daqui: os carros se misturam
e a impressão que se tem é de que um vai bater no outro.


Andar de carro requer paciência e bom humor. Os chineses adoram uma buzina. Eu costumo dizer que “primeiro eles devem comprar a buzina, pra só depois escolher o modelo do carro”.

São muitos veículos! E pensar que há pouco tempo as ruas eram monopólio das pessoas e das bicicletas. De acordo com o Departamento de Gerenciamento de Trânsito de Beijing, o volume total de veículos motorizados ao final de 2007 era de 3.13 milhões. Hoje são mais de 5 milhões.

Veja alguns números sobre o sistema de transporte da capital:        

·       São 88 rotas de ônibus – numerados de 1 a 999.
Pela cidade circulam ônibus articulados, ônibus comuns, ônibus de dois andares e ônibus elétricos – todos com ar condicionado.

Ônibus de dois andares.


Ônibus articulado.


·       Nove rodovias expressas ligam o centro da cidade aos subúrbios;

·       Onze autoestradas – as estradas federais – partem de Beijing;

·       Cinco anéis rodoviários cercam a cidade.

O 1° anel, na verdade, não existe. 
Ele seria o que cerca a Cidade Proibida.
O 6° anel é uma continuação do 5°.
O 7° anel ainda é um projeto. Ele vai ultrapassar
os limites de Beijing.


O governo incentiva o uso do transporte público cobrando muito pouco pelo serviço. A passagem do metrô custa 2 Yuan e a dos ônibus comuns 1 Yuan (com o “cartão inteligente” paga-se apenas 0,40 Yuan).

Andar de táxi também é barato. A tarifa começa em 13 Yuan pelos primeiros 3km e aumenta 2,30 Yuan a cada quilômetro extra. Após às dez horas da noite a tarifa sobe 20% (é a “bandeira dois” deles).

Aqui também existe táxi pirata. Eles normalmente cobram um preço fixo, bem maior do que a corrida num táxi oficial. Mas cuidado! Você pode combinar um preço e no final o motorista querer outro. Aí é a maior discussão.


Táxis oficiais.


Beijing tem várias estações ferroviárias, sendo que três são consideradas as principais: Beijing Railway Station, Beijing West Railway Station e Beijing South Railway Station. Essas duas últimas estão entre as maiores do mundo. As outras estações são Beijing East, Beijing North, Fengtai, Guanganmen e Xinghuo.

Estação Beijing West Railway.


Oito linhas ferroviárias partem de Beijing - o principal pólo ferroviário do país - para outras cidades. Há ainda as linhas do trem bala.

O Trem Transiberiano que segue para Ulaan Baatar, na Mongólia, e depois para Moscou, na Rússia, parte de Beijing. Existem linhas internacionais para Pyongyang, na Coreia do Norte e Hong Kong. Essas costumam sair da Beijing West Railway Station e Beijing Railway Station. 

Como já falei aqui no blog, as estações são moderníssimas e dão de goleada nos aeroportos brasileiros.

Estação Beijing South.

O trem bala.

Nossa primeira vez no trem bala.

São dezenas de plataformas.


Na volta de Datong, em Abril de 2012, andamos no trem mais lento, 
que é bem simples. 


E por falar em aeroporto, não poderia deixar de citar o transporte aéreo. O Beijing Capital International Airport fica a cerca de 20km do centro da cidade e é composto por três terminais. Movimenta mais de 85 milhões de passageiros por ano. É show! (O Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro tem um fluxo de 17 milhões de passageiros anuais).

Beijing Capital Airport.
                                                                                                                                                                                               
Já existe o projeto de construção de um novo aeroporto, já que o atual não está suportando a demanda. Sua capacidade deve ser de 100 milhões de pessoas por ano.

Há ainda outros quatro aeroportos de menor capacidade funcionando na cidade.

Todos esses números impressionam, não é mesmo? Mas mais impressionante ainda é conviver com isso. Seja na loucura do trânsito, nas modernas estações e aeroportos, aprendi sempre alguma coisa com os chineses. A maior lição que fica é que quando os governantes querem eles podem transformar uma cidade milenar como Beijing, num exemplo de modernidade. A perfeição não existe, mas a vontade de melhorar e SEGUIR sempre melhorando é algo que dá gosto de ver.

Rapidinhas:

·       O governo estuda implementar um rodízio de carros mais rígido para diminuir os engarrafamentos e também para diminuir a poluição.

·       Por falar em poluição, está em pauta, também, a fabricação em maior escala de veículos elétricos e híbridos, que não poluem o ar.

A poluição é um dos grandes problemas das principais
metrópoles chinesas.


·       Comprar um carro em Beijing não é simples. Primeiro é preciso entrar num sorteio para obter a placa do veículo. E num sorteio aonde chegam a participar 1 milhão e meio de pessoas, apenas 18 mil são contemplados. Para diminuir o número de carros nas ruas e, principalmente, a poluição, o governo vem diminuindo gradativamente o número de sorteios e sorteados.

·       E só podem participar do sorteio em Beijing, os residentes permanentes da cidade ou imigrantes que tenham pago taxas na capital por pelo menos cinco anos.

·       Beijing já foi chamada de “O Reino das Bicicletas”. Em 2009, de acordo com o governo, eram 13 milhões de bicicletas, mas com a chegada dos carros esse número diminuiu bastante. Estima-se que tenha caído pela metade. Algumas pessoas costumam dizer o seguinte: “É melhor chorar num BMW do que sorrir numa bicicleta”. Sinal dos tempos de uma nova metrópole que já teve a bicicleta como um de seus ícones.

·       Assim como outras cidades chinesas, a capital possui um sistema de aluguel de bicicletas. Elas ficam a disposição nas calçadas, perto das estações de metrô. A primeira hora de uso é grátis, depois é cobrado 1 Yuan a cada hora adicional.


Bicicletas de aluguel.


·       Não espere ver o ciclista chinês usando capacete, colete, luvas ou outro acessório de segurança normalmente exigido em outros países. Aqui, se tem ciclista com capacete, pode apostar que é estrangeiro!

·       Quem vem a Beijing não pode deixar de andar de riquixá, a tradicional bicicleta elétrica guiada por chineses – a bicleta-táxi. Mas o turista precisa ficar atento aos preços. Como sempre os chineses jogam o preço lá no alto, mas uma “corrida” costuma custar 20 Yuan – num trajeto de uns 5km. Andar de riquixá é viver fortes emoções, porque os condutores costumam entrar na contramão, cortar carros e ônibus, quase atropelar os pedestres... É uma grande aventura!

Esse é o riquixá mais tradicional, aberto.

Esse outro é o fechado. Andei nele com os meus primos da foto
e foi realmente uma loucura. O condutor pegou a
Jianguomen, simplesmente a avenida mais movimentada 
da cidade, pela contramão.


Aqui o exemplo de um riquixá na contramão.
E eu estava lá dentro!!!


·       Na China você vê transporte de tudo quanto é tipo. Dá até vontade de levar um deles pra casa. Pena que não é permitido. Já imaginou andar pelas ruas no Brasil com um carrinho como esse abaixo? Dá pra parar em qualquer vaga!!!


Não dá vontade de ter um?

E dar uma volta nessa limusine? Deve ser interessante.
Só não sei como um veículo tão grande consegue
se locomover nesse trânsito complicado.


Em Beijing tem até engarrafamento de carrinho de supermercado...


Aqui existe vez para todos: tem até
estacionamento para cadeirante!
Explicando: os idosos costumam empurrar suas próprias
cadeiras de rodas - que acaba servindo como um "andador".