sexta-feira, 27 de junho de 2014

Onde a Muralha encontra o Mar

A Grande Muralha é a atração mais conhecida aqui da China. Mas o que pouca gente sabe é que existe um lugar em que ela encontra o mar: é em Qinhuangdao (Qínhuángdǎo, 秦皇).

A cidade, na província de Hebei, fica a cerca de 300km a leste de Beijing e abriga o passo de Shanhaiguan (Shānhǎiguān, 山海关) – “Passo da Montanha e do Mar” - onde estão o Primeiro Passo sob o Céu e Laolongtou.



Shān significa “montanha” – referência a Montanha Yan, que está ao norte, e hǎi significa “mar”, o Mar de Bohai, ao sul.


Mar de Bohai (Bóhǎi , 渤海é um golfo ou estreito do Mar Amarelo, 
no norte-nordeste da China. 
Uma das rotas marítimas mais movimentadas da atualidade.


Qinhuangdao é a única cidade da China com o nome em homenagem a um imperador, Qin Shi Huang (Qínshǐhuáng,秦始皇) da Dinastia Qin, primeiro imperador da China unificada. A cidade, anteriormente chamada de Jieshi, foi renomeada Qinhuangdao (Ilha do Imperador Qin) pelo soberano chinês.


Qin Shi Huang.


Estátua de Qin Shi Huang, na praia de Qinhuangdao.


Construída em 1579, durante o período da Dinastia Ming (1368-1644), Laolongtou (Lǎo lóngtóu, 龙头) - a “Antiga cabeça do dragão” - foi destruída em ataques das Oito Nações Aliadas, em 1900, sendo totalmente recuperada em 1984.

Segundo os chineses, o formato da muralha neste ponto é o de um dragão deitado bebendo água, daí a origem do nome. A “cabeça” do dragão estende-se 23 metros dentro do Mar de Bohai.

A cabeça do dragão...

...onde a Muralha encontra o mar.




A muralha aqui tem nove metros de altura e oito metros de largura.


 
Parte da muralha original preservada.


A cabeça do dragão bebendo água.

O lugar é muito bonito e é interessante ver a construção encontrando o mar. Só não consegui descobrir se ali é o começo ou o fim da Grande Muralha. Como se trata da cabeça de um dragão, vou considerar como o início.


Laolongtou, por sua posição geográfica, era um importante ponto estratégico dentro do sistema de defesa da Grande Muralha, na guerra contra as invasões dos grupos da Manchúria.

Para chegar até a “antiga cabeça do dragão” é preciso passar ao lado do Chenghai Pavillion, local usado pelos Imperadores da Dinastia Qing (1644-1911) para reverenciar seus ancestrais. Entre eles estava o Imperador Qianlong que, no 19° ano de seu reinado, mandou construir ao lado do Chenghai Pavillion um outro pavilhão, bem menor e simples, chamado de Pavilhão Real. Qianlong gostava de ficar ali quando ia fazer inspeção na Muralha.

Imperador Qianlong.


Pavilhão Real.

Originalmente, Chenghai funcionava como torre de defesa.


O caminho da cabeça do dragão visto do Pavilhão Chenghai.


Gravura, dentro do Chenghai Pavillion, mostrando do passo de Shanhaiguan, 
que tem 4km de perímetro (medida do comprimento do contorno).


Seguindo pela praia, a 350 metros de Laolongtou está o Templo de Nereus (um antigo Deus do Mar, pai das Ninfas Marinhas). 

Templo de Nereus na ponta da praia.


Acesso à praia. Chenghai ao fundo.

Além da figura de Nereus, o lugar abriga uma imagem da Deusa Mazu, dos Oito Imortais e Deuses dos Portais, além de uma Torre do Tambor, uma Torre do Sino e um portal típico chinês, além do pavilhão que fica 124 metros mar adentro. É o único templo taoísta da China construído sobre o mar.

Templo de Nereus.


Hall dedicado a Nereus, o Deus do mar.


Pavilhão de observação do mar. 


Gigi tocando o sino...

...e o tambor.


No Templo de Nereus, com Laolongtou ao fundo.


Diz a lenda que a Deusa Māzǔ,   vimos uma estátua dela enorme em Qingdao – costumava entrar no mar para salvar pescadores e marinheiros que corriam perigo. Mazu era a jovem Lin Mo, que morreu aos 28 anos, sem nunca ter se casado. Templos da Deusa podem ser vistos em diversas cidades costeiras dos países asiáticos.

Hall da Deusa do Mar...

... a Deusa Mazu.


Já o Primeiro Passo sob o Céu (Tiānxià dì yī guān, ), construído em 1381, abrigava um complexo com cinco torres ou portas, sendo a principal dela a Zhendong Tower (Zhèndōng Mén, 镇东门), com 13.7m de altura e dois andares. A porta Zhendong, a única ainda existente, tem sua face externa virada para a direção de Beijing.

Entrada leste para o Primeiro Passo sob o Céu.

Os chineses adoram essas rochas.

O caminho para a Zhèndōng Mén.

 A Zhèndōng Mén


O complexo de Shanhaiguan, incluindo Laolongtou, é apontado como um dos passos mais bem fortificados da Grande Muralha. Além disso, é também considerado o passo “número um”, e peça fundamental na defesa das duas antigas capitais, Beijing no leste e Chang’an – atual Xi’an – no oeste.

A cerca de seis quilômetros do Passo de Shanhaiguan visitamos o Templo Mengjiangnu (Mènɡjiānɡnǚ miào, 孟姜女), erguido em homenagem a Meng Jiang. Outra lenda chinesa fala que há muito tempo atrás, centenas de milhares de trabalhadores foram obrigados a reconstruir a Grande Muralha e que Meng Jiang foi para a região a procura de seu marido, que era um desses trabalhadores. Quando descobriu que ele havia morrido por causa do trabalho intenso, ela chorou tanto que um trecho de 20km da Muralha desmoronou. Desesperada, Meng Jiang se suicidou, jogando-se no mar.

O templo fica na Montanha Fenghuangshan (Fènghuáng shān 凰山) - Montanha da Fênix” - e foi originalmente construído antes da Dinastia Song (960 - 1279) e reparado durante a Dinastia Ming (1368 - 1644).


A caminho do Templo de Mengjiangnu.

Estátua de Meng Jiang.

Escadaria de 108 degraus. O número 108 é considerado sagrado em muitas religiões e tradições orientais, como o hinduísmo e o budismo, entre outras. Segundo o Budismo, por exemplo, 108 é o número de problemas que afligem o homem.


No alto da colina, tocando mais um sino.


Lá do alto é possível visualizar parte
da Grande Muralha serpenteando pelas montanhas. 




Já na parte debaixo do Templo, um lago e um pavilhão,
além da imagem de Meng Jiang na água.

.
Outra parte do Templo, com mais uma imagem de Meng Jiang.

Antigo portal.

Na beira do lago.
  
Beidaihe

Beidaihe (Běidàihé qū 北戴河区) – Distrito de Beidaihe - é uma estância balneária popular e um distrito da cidade de Qinhuangdao



A cidade, conhecida como “refúgio dos pássaros”, tem como uma de suas principais atrações a Yinjiao Stone, uma pedra que, segundo dizem, parece uma águia empoleirada em cima de um rochedo imponente.

Yinjiao Pavillion, no alto da pedra de mesmo nome.


Cachoeira artificial em Beidaihe.


O lugar é muito frequentado por russos, 
por isso as placas têm também as
informações no alfabeto cirílico.



Para atrair mais visitantes, o centro de Beidaihe foi projetado em um estilo europeu: 
uma arquitetura muito usada nos tempos coloniais na história chinesa. 


Mas tem também, é claro, o tradicional
pavilhão chinês na praça.


Qualquer semelhança com o logo do Burger King
não é mera coincidência.
Cópia chinesa.

 
Vimos vários grupos como esse dançando nas ruas.
Deve haver alguma competição entre eles.


Visitei diferentes passos e trechos da Grande Muralha nessa minha passagem pela China. A princípio pode parecer tudo igual, mas se olharmos bem, cada um tem uma particularidade. Não dava para esperar algo diferente num país que tem uma história pra lá de milenar. Estou ansiosa para retornar ao Brasil, mas confesso que também já estou com saudades do que está ficando para trás.


Você sabia?
  
·         A China quer tirar do papel o plano de construir o maior túnel transoceânico do mundo, ligando Dalian, na província de Liaoning, a Yantai, na província de Shandong. Pelo projeto, o túnel de 123km, sendo 90km embaixo d’água, deve ser construído de 2016 a 2020. A travessia pelo mar entre as duas cidades costuma levar oito horas, e com o túnel esse tempo seria reduzido para 40 minutos! Trens andarão no Túnel de Bohai a cerca de 220 quilômetros por hora, enquanto os veículos de passageiros serão transportados em vagões ferroviários.

Em vermelho a ligação Dalian-Yantai com o Túnel de Bohai.


·         O porto de Qinhuangdao é o centro de transporte de carvão do país. Lembrando que o carvão mineral é a principal fonte de energia da China.

·       Qinhuangdao serviu como sede de algumas partidas de futebol dos Jogos Olímpicos de 2008, em Beijing.  A seleção brasileira masculina, inclusive, jogou na cidade, no dia 13 de agosto, contra a seleção chinesa, e venceu por três a zero. O Brasil terminou em terceiro lugar – medalha de bronze – na competição.

Bolão dos Jogos Olímpicos de 2008.

Times de Brasil e China no dia 13/08/2008.



Mais de Qinhuangdao:


 
Farol Nanshantou, na praia de nosso hotel.


Nosso hotel.

Gigi se refrescando.


 

Homem moldando peças de acrílico na praia.

Artesanato em acrílico.


A praia em frente ao hotel é bem movimentada.






                           

sábado, 21 de junho de 2014

Tem Copa na China?

Faz uma semana que a Copa do Mundo de futebol começou no Brasil e as emoções aqui na China são praticamente “zero”.

Na estreia da Seleção Brasileira diante da Croácia fomos a um restaurante aqui de Beijing, a convite da Embaixada do Brasil, e foi difícil segurar o sono até às três da manhã. Esse é um dos problemas: o horário das partidas pra gente do outro lado do mundo. Jogo às 13h no Brasil, meia-noite na China. Às 16h? Três da matina em Beijing. O melhorzinho é o das 19h ou seis da manhã.


Esse olhão aberto durou pouco.
Ela dormiu o tempo todo do jogo.

Bola rolando em São Paulo.

Não podia faltar uma foto com o Fuleco.

Sempre gostei de acompanhar o maior número possível de jogos numa Copa do Mundo. Seja por causa do trabalho ou por prazer próprio. Adoro futebol e a Copa é o momento máximo do esporte.

Visto a camisa, torço, sofro... Mas esse ano, sinceramente, tá difícil vibrar muito. Não estou achando o Brasil com um time confiável, mas o futebol, como dizem, “é uma caixinha de surpresas”. A até então toda poderosa Espanha, campeã do mundo, não acaba de ser eliminada? Tudo pode acontecer.

Confesso que me emocionei no segundo jogo do Brasil, contra o México, ao ouvir a torcida cantar, à capela, nosso Hino Nacional (no jogo de estreia o áudio do restaurante estava horrível). Mas isso não é novidade. Sempre que ouço o Hino do Brasil não consigo segurar a emoção. Em 1994 estava nos Estados Unidos e fui aos dois primeiros jogos da Seleção na Copa, em Palo Alto, Califórnia, contra Rússia e Camarões. Enrolada na bandeira brasileira, chorei. Guardo essa bandeira até hoje: a bandeira do Tetra.

Aqui a gente só sabe que tem Copa rolando por causa de alguns poucos anúncios nas ruas e pela grande Brazuca em frente à loja da Adidas, no Sanlitun. Na praça central do Taikoo li  (Tàigǔ lǐ sānlǐtún,太古里三里) – antigo Village - montaram um stand onde é possível participar de uma competição de chutes a gol contra um goleiro-robô e visitar uma pequena exposição com artigo da Adidas, é claro.

Os jogadores brasileiros se destacam
nas propagandas da Copa por aqui. 

Estou até me surpreendendo com a TV chinesa: a estatal CCTV está com a programação do Canal 5 voltada para o Mundial. Até agora passaram todos os jogos. Chato é acompanhar a narração do locutor chinês. Ele leva a partida sozinho, sem comentarista, e na hora dos gols não solta nenhum “gooollll” em chinês (nem sei como se fala “gol” em Mandarim. Taí algo que preciso saber).

Tenho programado o despertador para me acordar na madrugada, mas só levantei, até agora, para o segundo jogo do Brasil. Nas outras vezes preferi o sono. Vamos ver se me animo daqui em diante.

Com esses jogos na madruga sigo solitária – e desconfiada - na torcida pelo hexa (meu marido e minha filha mais nova nem pensam em acordar). Mas de camisa do Brasil vou seguir torcendo, na esperança de ver nossa seleção brilhar, apesar do futebol “chinfrim” até agora. Só tenho que me conter pra não gritar, no meio da noite, e acordar os vizinhos chineses. Brasiiiillllll!!!


O Blog também é diversão

Você conhece bem a história das Copas? A partir de 1970, na Copa do México, quando o Brasil ganhou o tricampeonato e levou para casa, definitivamente, a Taça Jules Rimet - depois roubada da sede da CBF, no Rio de Janeiro - as bolas da competição passaram a ter um nome oficial. Você sabe todos eles? Tente se lembrar. As respostas estão lá no final do post. Boa sorte!



México, 1970.

Alemanha, 1974.

Argentina, 1978.

Espanha, 1982.

México, 1986.

Itália, 1990.


Estados Unidos, 1994.

França, 1998.

Coreia do Sul e Japão, 2002.

Alemanha, 2006.

África do Sul, 2010.

Brasil, 2014.



Respostas:
México, 1970.
O mundo viu uma das mais brilhantes seleções de todos os tempos fazer a festa nos gramados mexicanos. Não dá pra falar somente de um jogador: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jairzinho, Pelé e Tostão. Isso sem falar nos reservas. O time comandado por Zagallo entrou para a história. E a bola do Tri, tão bem tratada pelos brasileiros, se chamava Telstar. Foi a estreia da bola com gomos em preto e branco nos Mundiais.

Alemanha, 1974.
O mundo se encantou com a Laranja Mecânica, a seleção holandesa, mas os campeões foram os donos da casa. A bola usada nos gramados alemães era “irmã” da bola do México, e se chamou Telstar Durlast.

Argentina, 1978.
A Copa em que o Brasil foi campeão moral. A Copa em que os peruanos entregaram o jogo para os argentinos, que chegaram a final contra a Holanda e conquistaram seu primeiro título mundial. A bola que rolou nos gramados dos Hermanos não poderia ter um nome diferente: Tango.

Espanha, 1982.
O Brasil de Telê Santana jogava um futebol bonito, mas ficou no caminho, caindo diante de Paolo Rossi e companhia, na Tragédia do Sarriá. Os italianos foram os campeões, chegando ao tricampeonato. A bola usada na Espanha também era “parente” da anterior e recebeu o nome de Tango Espanha.

México, 1986.
Os gramados mexicanos, de tantas boas recordações para o Brasil, viram a Argentina, de Diego Maradona, ser campeã pela segunda vez. A Seleção Brasileira parou nos pênaltis, diante da França. A bola da Copa do México, dessa vez, recebeu um nome bem local: Azteca.

Itália, 1990.
Alemanha e Argentina disputaram a final. Quem vencesse chegava ao tri. A vitória foi alemã. Na pior campanha desde a Copa de 1966, o Brasil foi eliminado nas oitavas-de-final pela rival Argentina, num gol de Caniggia. A bola italiana se chamava Etrusco Único.

Estados Unidos, 1994.
O ano do Tetra, do Brasil de Romário, Bebeto e companhia. Vencemos a Itália na cobrança dos pênaltis, com a ajudinha de Baggio, o craque italiano que isolou a bola, batizada de Questra.

França, 1998.

A Copa em que Zinedine Zidane e seus companheiros conquistaram o primeiro título da França. Quem não lembra da final contra o Brasil? A partida em que Ronaldo, o fenômeno, passou mal e descontrolou todo o time? A bola francesa, a primeira colorida dos Mundiais, se chamava Tricolore, e levava as cores do país anfitrião, bleu, blanc, rouge: azul, branco e vermelho.

Coreia e Japão, 2002.
Foi o ano do Penta, da seleção comandada por Felipão, e que marcou a redenção de Ronaldo, com o Brasil atropelando a Alemanha na final. Pela primeira vez a Copa do Mundo foi sediada em dois países ao mesmo tempo. A bola usada nos gramados do oriente foi a Fevernova.

Alemanha, 2006.
Todos esperavam a Alemanha na final, mas a decisão foi entre Itália e França. Zidane, entrando nas provocações de Materazzi, deu uma cabeçada no adversário e foi expulso de campo, facilitando o trabalho dos italianos, que chegaram ao Tetracampeonato Mundial. O Brasil caiu nas quartas-de-final, diante dos franceses. A bola usada na Copa recebeu o nome de Teamgeist e tinha uma particularidade: levava impressa em sua superfície a data, o nome do estádio e das seleções de cada confronto. Na final foi usada uma versão especial, chamada de Teamgeist Berlin, que era composta por detalhes dourados.

Teamgeist Berlin

África do Sul, 2010.
A primeira Copa no continente africano teve um campeão inédito: a Espanha. A seleção brasileira parou nas semifinais diante da Holanda. A Jabulani fez sucesso nos gramados da África e assim como na final da Copa anterior, ela teve uma edição especial para a decisão: a Jo’bulani, também em versão dourada.


Jo’bulani


Brasil, 2014.
Nos gramados brasileiros está rolando a Brazuca, uma bola multicolorida. Será que na final ela vai ter uma versão diferente? E será que o nome muda? É esperar pra ver.



Ah, pode ser que Thiago Silva não levante a Taça Fifa, mas eu, aqui do outro lado do mundo, já tive meu momento de glória!!!!


A danada da Taça era pesada!!!!